O esoterismo lacaniano

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Também estou convencido de que em dez anos no máximo, aquele que me lerá me achará extremamente transparente, como um belo copo de cerveja. Talvez até se diga então: “Esse Lacan, que banalidade!”.

(Jacques Lacan, em entrevista no ano de 1974)

Lá se vão mais de cinquenta anos e não conseguimos expressar o desdém que Lacan imaginou despertar no leitor que leria os seus textos no futuro. Escritor reconhecido por seu estilo gongórico, digno de comparações com Joyce ou com um quadro surrealista, é concesso entre os leitores do psicanalista francês o esforço exigido para interpretar, melhor, sejamos claro, decifrar os seus textos. A questão que gostaríamos de encaminhar no presente texto, questão retomada tantas vezes antes por outros colegas, justamente por causa de sua pertinência, é: por que é tão difícil de ler Lacan? Existe uma enormidade de fatores que podem ajudar na resposta da pergunta.

A princípio é necessário recordar que uma parte significativa do ensino de Lacan ocorreu em formato oral nos seminários realizados entre 1951 e 1979, sendo que o seminário de 1951-52 sobre o caso Dora não foi gravado e o seminário de 1952-53 sobre o Homem dos Lobos teve apenas quatro lições gravadas e publicadas. A estenografia dos seminários passou por um processo de edição e de divisão cuja publicação completa de todos os volumes não ocorreu ainda, quarenta e cinco anos depois da morte de Lacan. A própria ordem de publicação dos volumes não parece atender qualquer requisito, o primeiro seminário publicado na França, em 1973, foi o de 1964 (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), o segundo publicado, em 1975, foi o de 1953-54 (Os escritos técnicos de Freud), o terceiro publicado, em 1978, foi de 1972-73 (Mais, ainda)… Nisso se soma que o processo de edição ficou sob responsabilidade de Jacques-Alain Miller, o genro de Lacan.

Um fator de ordem tecnológica não menos importante foi o surgimento do telefone que fez com que o número de envio de cartas fosse reduzido drasticamente, inviabilizando, assim, o registro de correspondências. De qualquer forma, os arquivos de Lacan não foram abertos ao público até o momento, embora tenha sido produzido um abaixo-assinado solicitando o acesso à biblioteca do autor que foi negado pela família.

Como era de se esperar de qualquer ensino oral, os seminários de Lacan são repletos de erros, trocas ou esquecimentos de nomes de autores citados, obras mencionadas ou datas relevantes. E o que dizer das próprias contradições do autor? Vejamos apenas um único exemplo. No seminário batizado como As psicoses, na lição de 16 de maio, Lacan é taxativo em afirmar que: “O termo frustração, por exemplo, tornou-se o leit-motiv das mães poedeiras da literatura analítica de língua inglesa, com tudo o que ele comporta de abandonismo e de relação de dependência. Ora, esse termo está simplesmente ausente da obra de Freud”1. O autor é bastante claro em afirmar que o termo frustração não se encontra presente nos textos do fundador da psicanálise e que sua introdução ocorreu apenas posteriormente, graças aos trabalhos das psicanalistas mulheres de língua inglesa. Porém, apenas sete meses depois, mas em uma lição publicada no seminário posterior, o termo frustração não somente se torna freudiano como também é elevado ao posto de conceito indispensável que deveria ser pensado junto com o seu par, o conceito de satisfação. “É um erro não partir da frustração, que é o verdadeiro centro quando se trata de situar as relações primitivas da criança”2. Assim como esse exemplo simples, outras várias contradições podem ser encontradas no conjunto de textos do autor que formam publicados até o momento.

Em conjunto com esses fatores se acresce o próprio estilo de um autor que beirou o limite da legibilidade escrita, que dialogou com praticamente todos os campos de conhecimento do século XX e que criou cerca de 800 neologismos3. Esses motivos são mais do que suficientes para afastar qualquer leitor pouco afeito com os problemas de interpretação de uma obra. O que não deixa de ser um fenômeno curioso o fato dos Escritos terem sido um sucesso de publicação e o lacanismo ter se tornado uma corrente hegemônica na psicanálise atual.

Martin Krymkiewicz4 faz uma observação interessante sobre como, em geral, o leitor médio lida com aquilo que não se entende de Lacan. Ele comenta que existem duas atitudes típicas. Em primeiro lugar, busca-se apoio nas formulações já bastante difundidas da psicanálise freudiana como forma de normalizar e de enquadrar o que não se compreende no psicanalista francês. Em segundo lugar, acusando o atestado de derrota, diz-se que o ensino lacaniano não possui sistema, não fecha e, assim, renuncia-se em buscar uma continuidade em meio às distintas formulações encontradas em sua obra. Nós poderíamos acrescentar muito bem como uma terceira atitude típica aquela do jovem perplexo que busca socorro na fonte de luz dos esquemas que foram criados pelos alunos mais próximos do mestre francês.

Krymkiewicz traz outro ponto bastante pertinente que resgatou de uma breve passagem extraída do artigo A instância da letra. Eis o trecho exato, esperamos que o sublinhado sirva como bússola para o leitor:

Havemos de ler com proveito o livro em que Léo Strauss, da terra clássica no oferecimento de asilo aos que escolheram a liberdade, medita sobre as relações entre a arte de escrever e a perseguição. Ali abordando de perto o tipo de conaturalidade que vincula essa arte a tal condição, ele deixa entrever o algo que aqui impõe sua forma no efeito da verdade sobre o desejo. Mas, acaso já não sentimos há algum tempo que, por ter seguido os caminhos da letra para chegar à verdade freudiana, ardemos em seu fogo, que consome por toda parte?5

Lacan menciona os trabalhos de Leo Strauss sobre escrita esotérica para argumentar que, assim como os escritores habilidosos precisam esconder suas declarações mais impactantes nas entrelinhas do texto com o objetivo de fugir da perseguição, o desejo em análise se vale das funções da retórica para superar os obstáculos impostos pela censura social. Em ambos os casos, trata-se de um trabalho de decifração exigido, respectivamente, para o leitor e para o analista. Essa chave de leitura adquire mais interesse se lembramos que Lacan considerava absurdo comparar Freud com Cristovão Colombo, por supostamente ter descoberto o continente desconhecido das forças irracionais que se agitam no inteiro do ser humano, e sugeria que uma comparação mais adequada seria com Jean-François Champollion6.

Os desafios de compreender um texto esotérico, de interpretar um sonho e de decifrar uma língua perdidas são compatíveis na medida em que o receptor precisa lidar com uma mensagem impregnada, distorcida ou alterada pela presença de ruído. Se essa hipótese estiver correta, não poderíamos dar um encaminhamento mais adequado para o próprio problema da falta de legibilidade em Lacan? É comum jogar o ônus da incompreensão exclusivamente sob responsabilidade do leitor, porém, não poderiam existir razões de ordem pessoal que fariam com que próprio Lacan, intencionalmente, quisesse ser incompreensível? Lacan não se cansou de dizer que os verdadeiros destinatários de sua mensagem eram os psicanalistas, portanto, o autor não poderia querer cifrá-la para que o próprio esforço de interpretá-la se convertesse em ensinamento? São com essas questões em mente que retomaremos o trabalho de Leo Strauss sobre escrita esotérica, embora de maneira breve, buscando prosseguir no caminho já aberto por Martin Krymkiewicz.

A arte de escrever

Em dezembro de 1784, o periódico alemão Berlinische Monatsschrift publicou em uma de suas edições um pequeno artigo no qual buscava responder uma pergunta que estava em suspenso naquele momento histórico: Was ist Aufklärung?. O autor do pequeno artigo foi ninguém menos do que Immanuel Kant7. O texto começa com o filósofo declarando que aquele período se configurava como uma solução de um problema. O problema consistiria na posição submissa na qual os homens geralmente se colocam quando precisam fazer o usufruto de sua própria razão. Se o homem possui um livro que substitui o seu entendimento, um guia que dirige o seu espírito ou um médico que prescreve sua dieta, então, ele não precisa pensar por si mesmo. Ele vive sob a tutela de outro, vive no estado de menoridade. O esclarecimento (Aufklärung) representaria o acontecimento histórico no qual os homens finalmente não dependeriam mais de um outro para dirigir o seu próprio entendimento.

Mais do que descrever um momento histórico, Kant falava sobre o surgimento de uma maneira de pensar, de sentir e de agir, em suma, o filósofo abordava o surgimento de uma nova atitude que era esperada do homem moderno após ter superado sua menoridade. Ele declara o que é necessário para existir pessoas autônomas. A saída da menoridade era uma tarefa e uma obrigação imposta para os homens e não poderia ser abandonada se não fosse por preguiça ou covardia. Disso decorre que o lema do esclarecimento não poderia ser outro senão: Aude saper! O homem é o próprio culpado por sua menoridade, não por deficit em sua capacidade cognitiva, mas por causa da ausência de coragem e audácia em querer saber.

A solução encontrada por Kant para o problema da menoridade humana se depara, porém, com um outro problema de ordem política. Uma vez definido que o homem é livre para pensar de maneira autônoma, o filósofo precisa estabelecer os limites de ação da liberdade pessoal quando exercida na esfera pública. Kant remenda o problema dizendo que existe um uso público e outro privado da razão. As instituições sociais impõe deveres e obrigações aos seus cidadãos, o general do exército diz “não raciocine, execute!”, o sistema tributário diz “não raciocine, pague!” e o bispo diz “não raciocine, creia!”. Para não perturbar o funcionamento da res replica, o soldado não pode deixar de realizar as tarefas militares, o contribuinte não pode deixar de pagar os impostos e o diácono não pode deixar de professar os sermões de acordo com o credo da Igreja. Nesse momento, o filósofo decreta que esses personagens não poderiam agir em desconformidade, pois foram admitidos para exercer essas funções sociais, o que não impede que na qualidade de sábios façam observações sobre os erros da instituição. Os indivíduos podem raciocinar o quanto quiser, desde que obedeçam. Kant conclui que os possíveis defeitos das instituições seriam reparados graças aos textos que os funcionários escreveriam e publicariam com o objetivo de que seus pontos pudessem ser votados em prol do melhoramento do corpo social.

Os séculos XVII e XVIII depositaram suas esperanças na capacidade de crescimento da liberdade dos indivíduos entre si. Essa esperança se reflete no pequeno artigo de Kant quando afirma que o esclarecimento do povo não é apenas possível como também inevitável e que chegar na maioridade pode ser retardado, porém nunca parado. É essa mesma esperança que também fez com que o filósofo não levantasse como hipótese que pudesse existir uma classe de homens que se colocasse no poder e impedisse que os demais ampliassem o seu conhecimento, se purificassem dos erros e avançassem cada vez mais no caminho do conhecimento. Nesse período, os intelectuais acreditavam que o ato de suspender o exercício da investigação livre era um resultado eventual, fruto de falhas na construção política e de atrasos na educação popular, que deveria ser corrigido pela instauração da república da luz universal. A plena liberdade de expressão poderia ser exercida livremente sem que ninguém pudesse sofrer nenhum mal por ter falado ou se ofender por ter ouvido uma verdade.

Leo Strauss busca justamente argumentar que os antigos e os modernos possuem pontos de vista muito distintos acerca da compreensão sobre os limites da educação popular e também modos diferentes de se comportarem na discussão pública. Os antigos partiam do pressuposto de que entre o sábio e o vulgo existe um abismo que não pode ser transposto pela edução, do qual o conhecimento da ciência e da filosofia deveria ser um privilégio para poucos. Eles estavam convencidos de que o exercício de pensar livremente poderia despertar o ódio na maioria das pessoas, o que tornava indesejável de praticá-lo de maneira pública independente do contexto histórico-político. Leo Strauss defende que os modernos não perceberam que existe um tensionamento entre o pensamento livre e o corpo social ou entre o uso público da razão e o poder porque se voltaram à vida prática e ao ideal da educação universal. Em outros termos, os modernos não perceberam que existe um paradoxo entre filosofia e política que remonta o dilema entre Sócrates e Atenas.

Nós conhecemos muito bem o desfecho trágico da missão socrática. Sócrates perambulava pelas ruas da cidade e indagava os mais proeminentes cidadãos sobre os assuntos de suas competências, assim, o general era questionado sobre “o que é a coragem?”, o sacerdote sobre “o que é a devoção?”, o político sobre “o que é a justiça?”, etc. Essa atitude inqueridora lhe rendeu o apelido de mosca de Atenas porque transitava de um canto ao outro incomodando os cidadãos mais sábios e poderosos com suas perguntas. Em geral, no decorrer do diálogo o interlocutor descobria que desconhecia o que supunha saber, demonstrando sua ignorância sobre o assunto. Por fim, os diálogos eram encerrados em impasses aporéticos, com ambos não possuindo qualquer resposta sobre o problema colocado no começo da investigação e prometendo retomá-lo em outra oportunidade, o que efetivamente não acontecia. Sua atitude fez com que fosse denunciado por três acusações que infligiam os costumes da cidade: corrupção da juventude, não acreditar nos deuses da cidade e introduzir novos deuses. As acusações levaram Sócrates à prisão e depois à morte por envenenamento com cicuta.

Em seu dilema pessoal, Sócrates precisou escolher entre se conformar com o conjunto de opiniões falsas e seguir uma vida segura ou se inconformar, ser perseguido e conduzido à morte. Esse episódio serviu como uma lição especial para um de seus discípulos. Platão obteve sucesso justamente porque teve plena consciência sobre os perigos de ser filósofo. Ele evitou ser intransigente com os donos do poder e se afastou do embate franco contra o vulgo. Ele foi o primeiro autor que conseguiu encontrar uma solução para o problema de expressar livremente o pensamento sem despertar o ímpeto de raiva dos poderosos. Para não deflagar o conflito entre filosofia e sociedade, Platão desenvolveu uma maneira de se expressar alternativa cujas verdades são transmitidas de maneira sutil e encobertas por uma linguagem hermética, alegórica e formatada de acordo com as opiniões aceitas na sociedade.

Platão foi o criador de um estilo de escrita no qual o autor se dirige simultaneamente para dois tipos de públicos, o leitor simplório e o leitor exigente. Esses textos possuem dois ensinos, no qual um encobre o outro: um exotérico e popular com feições edificantes e endereçado ao grande público e outro esotérico e voltado ao pequeno grupo de conhecidos cujas declarações sobre os temas mais relevantes só são indicadas nas entrelinhas do texto. Essa técnica de escrita surgiu para solucionar o antigo problema entre o ensino filosófico e o uso público da razão. O filósofo precisa se expressar com base na avaliação que faz do vulgo, com o objetivo de escapar da perseguição, mas sem deixar de dizer o que pensa sobre os assuntos mais importantes. Dessa forma, o filósofo transmite o seu ensino esotérico de maneira exotérica, ou seja, transmite o seu ensino secreto de maneira pública.

O público-alvo desses escritos não é o filósofo completo e tampouco o vulgo ignorante, mas somente os jovens que poderiam se tornar filósofos. O jovem curioso se sente instigado pelo aspecto obscuro e contraditório de alguns enunciados, pelos pseudônimos utilizados na obra, pela repetição inexata de trechos, pelas expressões estranhas usadas pelo autor, etc. Esses traços enigmáticos são ignorados pelo leitor sonâmbulo, mas servem para despertar o leitor atento e incitá-lo para uma segunda leitura mais cuidadosa do texto. A partir das pistas deixadas no texto, o escritor conduz o jovem curioso de maneira gradativa, partindo da visão popular, essencial para os propósitos práticos da vida, até chegar à verdade essencialmente teórica. Assim, o jovem também é guiado través do trabalho difícil e demorado, mas sempre prazeroso da educação.

O exercício do pensamento livre e público sempre foi objeto de censura em qualquer país e época, o que se altera é apenas sua intensidade. O grau máximo de censura foi alcançado na Inquisição Espanhola e o grau mínimo ocorre corriqueiramente nos países mais democráticos do mundo moderno através do ostracismo social, entre esses dois extremos existem formas intermediárias de perseguição. A liberdade em investigar e publicar nunca foi um direito garantido. Portanto, desde que exista censura, o escritor precavido precisa estar advertido que existem verdades que podem ofender o leitor e, uma vez ofendido, sempre pode existir o perigo da retalhação.

A visão ortodoxa não se consolida no poder por causa da imposição de um tirano, pois o pensamento que é imposto geralmente não se converte em persuasão dos indivíduos. As pessoas são convencidas gradativamente porque ocorre o apagamento das contradições e não existe mais possibilidade de escolher entre duas ou mais visões, cujos escritores de pensamento heterogêneo e independente ficam sob o encargo de transmiti-las. Nós prontamente admitimos que nenhuma mentira resiste ao teste de repetição constante, logo, acreditamos também que é verdadeira uma declaração repetida constantemente e nunca contrariada. Essa declaração adquire mais veracidade se for enunciada por uma autoridade. Dessa forma, se isenta de qualquer falsidade uma declaração que é repetida por uma autoridade e nunca é contrariada.

O modo como um autor é lido não depende apenas da crescente exatidão criada pelos leitores de sua obra, mas depende também das mudanças na atmosfera intelectual da sociedade e da época. Essas mudanças impõem quais textos são considerados legítimos ou espúrios e como devem ser lidos. Dessa forma, ocorre com frequência que conceitos e distinções que eram comuns para uma geração mais velha sejam alterados, modificados ou apagados para uma geração mais nova. Contudo, o sistema ortodoxo e o apagamento da história dos conceitos não são suficientes para impedir o homem de pensamento livre e independente.

A perseguição não consegue impedir sequer a expressão pública da verdade heterodoxa, uma vez que o homem de pensamento independente pode proferir suas visões em público e permanecer incólume se agir com circunspeção. É-lhe inclusive possível publicá-las sem correr riscos, contanto que seja capaz de escrever nas entrelinhas8.

A técnica de ler nas entrelinhas busca penetrar no pensamento secreto de autores do passado que viveram em sociedades com cerceamento de liberdade de expressão. A sociedade não-liberal se define como qualquer corpo social que coloque os mais variados tipos de obstáculos para o constante questionamento dos pressupostos estabelecidos. Nessas sociedades, em que o direito básico de expressão não se encontra garantido, é que o leitor precisa avaliar o modo no qual o autor escolheu para transmitir as suas próprias ideias.

Leo Strauss sugere que existem dois pré-requisitos para reconhecer que uma leitura nas entrelinhas seja necessária: (i) o livro em questão deve ter sido escrito em tempos de perseguição, ou seja, numa época cuja ortodoxia era reforçada pelas leis e pelos costumes da comunidade, (ii) caso o autor estudado possua uma visão clara da ortodoxia de seu tempo e contradiga de maneira dissimulada ou brevemente os seus pressupostos ou consequências, aos quais afirma de maneira explícita em várias passagens de seu texto, então, temos boas razões para desconfiar que ele se opõe ao sistema ortodoxo vigente. Se esses dois critérios forem contemplados, o pesquisador deve examinar todo o seu livro uma segunda vez com mais cuidado e menos ingenuidade do que fez na primeira vez.

Lacan, um perseguido?

No verão de 1936, os psicanalistas que chegaram de todos os lugares da Europa e dos Estados Unidos se reuniram em um hotel luxuoso na cidade de Marienbad, na República Tcheca, para participar do XIV Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA). Entre os participantes do congresso estava um jovem que, desde o final de 1934, havia se tornado membro aderente da Société Psychanalytique de Paris (SPP). Ele estava inscrito para realizar uma apresentação com um longo título: “O estádio do espelho: teoria de um momento estruturante e genético da construção da realidade, concebida em relação a experiência e a doutrina psicanalítica”. A proposta parecia ousada, consistia em reler em outra base teórica o conceito psicanalítico de Eu. Porém, apenas dez minutos após o começo da fala, o orador foi interrompido, pelo presidente da mesa Ernest Jones, e saiu do congresso sem entregar o texto para ser publicado nas atas. O jovem que teve sua fala interrompida e logo em seguida abandonou o evento, talvez por se sentir humilhado, era Jacques Lacan. Esse episódio deve ter deixando sua marca, pois mesmo após dez anos Lacan continuou se referido ao ocorrido daquele dia9.

Saltemos no tempo e vamos até 1953. Nesse ano ocorreu uma cisão no interior da SPP, o único instituto de psicanálise em solo francês reconhecido naquele momento pela IPA, criada por Freud. Essa cisão, relacionada com a política de formação dos futuros analistas, fez com que surgisse outro instituto chamando de Société Française de Psychanalyse (SFP). A SFP foi fundada sem o respaldo da IPA por Françoise Dolto, Daniel Lagache e Jacques Lacan, que foram seguidos pelos jovens analistas em formação.

No dia 8 de julho de 1953, Lacan foi o responsável por inaugurar os trabalhos científicos do novo instituto com sua conferência “O simbólico, o imaginário e o real”. Esse foi o primeiro momento em que o autor usava os três registros, tomados, desde então, como essenciais da realidade humana. Essa reorientação teórica implicava em compromissos diferentes daqueles do fundador da psicanálise. Em 14 de julho, Lacan endereçou uma carta para o seu ex-analista, Rudolph Loewenstein, com quem contava com o apoio na fundação da SFP, informando sobre os motivos da cisão e relatando suas desavenças com Sacha Nacht, presidente da SPP na época. Na carta, Lacan escreve que fazia parte da Comissão de Ensino da SPP e estava sob o encargo de redigir um novo estatuto, responsável pela formação e habilitação dos alunos, quando foi alvo do grupo liderado por Nacht. Em especial, Lacan diz que foi acusado de sair do padrão da técnica psicanalítica porque realizava sessões mais curtas em sua análises didáticas. Ele complementa:

Fui posto à prova da mais constante e desoladora traição. Alguém, Nacht, por quem eu tinha amizade comportou-se de maneira tal que, a cada vez que a mulher dele — atarantada, aliás, com esse caso — telefonava para a minha, eu podia encontrar aí o indício certeiro de que ele me daria, nas 48 horas seguintes, um novo golpe. Ele não poupou nada para me atingir10.

Saltemos para os anos sessenta. Nesse período, a SFP foi reconhecida oficialmente como um instituto de psicanálise pela IPA, em troca da suspensão dos seminários que Lacan realizava no hospital de Sainte Anne. Depois de ser afastado do espaço de formação dos analistas, o psicanalista pediu exílio para Louis Althusser, que lhe concedeu uma sala para realizar seus seminários na École Normale Supérieure. Em 15 de janeiro de 1964, Lacan fez sua aula inaugural. Nesse momento, dizia estar chegado no novo espaço na condição de refugiado depois de ter sido traído por seus colegas e ter seu ensino censurado. A situação na qual diz ser vítima foi comparada àquela da excomunhão sofrida por Espinosa pela Igreja11. Em seguida, Lacan abre o questionamento se teríamos na psicanálise uma religião ou uma ciência.

Nos meses compreendidos entre março e outubro de 1966, Lacan dedicou suas noites em Paris e depois se isolou em suas férias num quarto de hotel na Itália para reunir os textos que iriam compor o volumoso livro de mais de 900 páginas, batizado como Escritos. Jorge Orellana12 fez uma bela análise comparando os textos originais e suas respectivas versões publicadas nos Escritos, na qual constatou que mais de 600 parágrafos foram reescritos. Um segundo dado importante em sua pesquisa foi que, entre os parágrafos refeitos, tanto existem passagens que se tornaram mais legíveis para o leitor, como também outras se tornaram mais enigmáticas por causa da exclusão de trechos, omissão de pontuação, junção de orações, etc. Tudo indica que Lacan possuía uma clara intenção de revelar algumas declarações e simultaneamente ocultar outras do leitor.

A organização dos artigos é outro traço interessante na composição dos Escritos. O livro é composto de 8 sessões indicadas por algarismos romanas e sua sequência não parece obedecer nenhum critério cronológico ou temático. O primeiro artigo que abre o livro possui uma organização espacial e temporal por si só intrigante. A versão original do artigo “O seminário sobre ‘A carta roubada’”, publicada em 1956, se divide basicamente em duas seções. Na primeira, o leitor é imediatamente surpreendido com um estranho sistema formal composto de símbolos, números e letras, no qual o autor diz conseguir exprimir melhor o que Freud buscou dizer com o conceito de compulsão à repetição. Na segunda, Lacan apresenta uma análise sobre o conto “A carta roubada” escrito por Edgar Allan Poe. Essas duas seções do artigo original recebem, na versão reeditada de 1966, os respectivos nomes de “introdução” e “o seminário sobre ‘A carta roubada’”. Porém, essas duas seções tiveram suas ordens invertidas na versão dos Escritos.

Não só o conteúdo do artigo original foi reeditado e aumentou de tamanho, como também os textos que foram escritos em 1956 e depois em 1966 se revesam na composição final do artigo. Nesse sentido, o próprio artigo se assemelha com um criptograma organizado de maneira intricada com o objetivo de mais esconder do que revelar e mais confundir do que esclarecer sobre o conteúdo da mensagem. Não parece fortuito que o conto de um detetive que resolve enigmas introduza o leitor na principal obra do psicanalista francês.

Como Antônio Teixeira13 bem observou, o mais impressionante foi como um livro de novecentas páginas de artigos esotéricos, sem nenhuma concessão pedagógica com o leitor, redigido no limite da legibilidade tenha conseguido ser um sucesso de venda. Para surpresa do próprio autor, os Escritos venderam cinco mil exemplares em quinze dias, cinquenta mil na primeira edição e cento e vinte mil na edição de bolso.

Contudo, no período de lançamento de seu único livro, Lacan comentava que fracassou em seu ensino e avaliava que sua publicação foi jogada na lata de lixo pelo próprio público que dizia seguir o seu ensino. Nesse momento, Lacan já não se referia aos chamados pós-freudianos, seus rivais de longa data, mas se dirigia aos psicanalistas que optaram em seguir o seus seminários ao longo de uma década. Se o seu ensino é uma mensagem endereçada aos psicanalistas, como gostava de afirmar, podemos dizer que o destinatário estava ausente e sua carta retornou para o remetente na forma de fracasso. A carta extraviada precisava de outro destinatário que não fosse do circulo particular de alunos do mestre, um novo leitor capaz de interceptar sua mensagem. E quanto tempo demoraria até ser entregue? O remetente responde assim: “Quando a psicanálise houver deposto as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização (mal-estar que Freud pressentia) é que serão retomadas – por quem? – as indicações de meus Escritos”14. Até lá, aguardemos…


1Lacan, J. O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1985, p. 268.

2Lacan, J. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1995, p. 75.

3Pélissier, Y. 789 néologismes de Jacques Lacan. Paris: Epel, 2002.

4Krymkiewicz, M. Lo que no se entiende de Lacan y su relación con el valor de la teoría en psicoanálisis. Buenos Aires, Arrebol, 2021.

5A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. Em: Escritos, Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p. 512.

6“Convém dizer que só se aceita isso com dificuldade, e que o vício mental denunciado acima goza de tamanho prestígio, que podemos esperar que o psicanalista de hoje admita que decodifica, em vez de se decidir a fazer com Freud as paradas necessárias (dê a volta na estátua de Champollion, diz o guia) para compreender que ele decifra: o que se distingue de decodificar pelo fato de que um criptograma só tem todas as suas dimensões quando é o de uma língua perdida”. Lacan, J. A instância da letra no inconsciente. Em: Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p. 514.

7Kant, I. Resposta à pergunta: que é o “Esclarecimento” (“Aufklärung”). Em: Immanuel Kant: textos seletos. Rio de Janeiro, Petrópolis, 1985.

8Strauss, L. Perseguição e a arte de escrever. São Paulo: É realizações, 2015, p. 35.

9“Fiz dela [construção do estádio do espelho] uma comunicação formal no congresso de Marienbad, em 1936, pelo menos até o ponto exatamente coincidente com o quarto toque do décimo minuto, quando me interrompeu Jones, que presidia o congresso como presidente da Sociedade Psicanalítica de Londres, posto para o qual sem dúvida o qualificava o fato de eu jamais ter encontrado um de seus colegas ingleses que não me tivesse a participar algum traço desagradável de seu caráter”. Lacan, J. Formulações sobre a causalidade psíquica. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 186.

10Lacan, J. Carta a Rudolph Loewenstein de 14 de julho de 1953. Disponível em: Carta a Rudolph Loewenstein de 14 de julho de 1953 – Lacuna.

11Leo Strauss possui um longo capítulo no qual se dedica à leitura esotérica de Espinosa.

12Orellana, J. El escritório de Lacan. Buenos Aires: Oficio analitico, 1999.

13Teixeira, A. Experiência de saber e testemunho íntimo no encontro com os escritos de Jacques Lacan. Revista aSEPHallus de Orientação Lacaniana. Rio de Janeiro, 12 (24), 81-91, mai. a nov. 2017.

14Lacan, J. A psicanálise. Razão de um fracasso. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 349.

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